quinta-feira, 5 de maio de 2011

A BURGUESIA E O COMUNISMO - PARTE 1

Edmilson Marques

Ainda se ouve na atualidade algumas pessoas expressarem que comunistas são aqueles que “devoram criancinhas vivas”. Uma ideia que causa aversão e acaba levando muitos a desconsiderar e desqualificar aqueles que se dizem comunistas ou que se aproximam de tal perspectiva. O comunismo, portanto, é concebido hegemonicamente como algo que não tem importância, ultrapassado, algo a ser evitado na prática*. Mas, na verdade, estas ideias nada mais são do que ideologias, ideologia no sentido concebido por Marx (2007), de ilusão, ideias metafísicas, enfim, “inversão da realidade” (VIANA, 2010, p. 19). Devido à confusão que gira em torno deste termo é que propomos discuti-lo.
As ideologias que promovem essas confusões são produtos do trabalho de intelectuais que buscam criar ilusões para limitar a consciência e dificultar o desenvolvimento da consciência correta da realidade, objetivando essencialmente, a manutenção da ordem estabelecida. Nesse sentido, as ideias funcionam como forças propulsoras que acabam fazendo com que as pessoas sejam constrangidas a defendê-las no cotidiano. As ideias fazem as pessoas lutarem em sua defesa. Por exemplo, se se fala constantemente para uma criança que no escuro tem um “bicho”, com o tempo ela será impelida a não ir no escuro pois em parte, pensará que lá haverá mesmo um “bicho”. Obviamente que essa ideia não é verdadeira. Quando um adulto diz isso a uma criança não está expressando que há verdadeiramente um “bicho” no escuro, mas está com isso, objetivando determinar e limitar a ação da criança. Desta mesma forma podemos discutir as conseqüências da ideia dominante e falsa de comunismo.
A expressão autêntica e verdadeira do comunismo tem em Karl Marx a sua primeira expressão. Ao tratar do comunismo o fez para expressar a sociedade que será fruto de um processo real da luta dos trabalhadores, em substituição ao capitalismo. Marx (2007) considera por comunismo “o movimento real que supera o estado de coisas atual”. Esta concepção de Marx, no entanto, foi distorcida. Vejamos a causa fundamental desta distorção.
O capitalismo é uma sociedade criada pela burguesia, à sua imagem e semelhança. Nesta sociedade a burguesia é classe dominante, privilegiada, a qual retira sua riqueza do processo de exploração no qual submete os produtores. É neste processo que realiza a extração e apropriação do mais-valor, a fonte fundamental do capitalismo.
O capitalismo, portanto, pressupõe a existência de uma classe dominante (a burguesia), e outras classes exploradas, entre as quais destaca fundamentalmente a classe proletária, por ser esta a produtora de riquezas. Pressupõe, assim a exploração, a luta de classes em torno da produção de mais-valor. A burguesia luta em prol da manutenção do capitalismo e as classes exploradas lutam pelo seu fim, pois nesta sociedade não têm outra alternativa para sobreviver, senão, submeter cotidianamente aos interesses burgueses.
A história do capitalismo está marcada por esta luta entre burguesia e proletariado. Este último por sua vez já demonstrou na prática que o fim do capitalismo é obra única e exclusiva de sua luta. Realizou várias experiências através das quais efetivou o seu projeto de sociedade, a autogestão social, ou seja, uma sociedade onde a organização social é realizada pelos próprios trabalhadores. A Comuna de Paris de 1871 representa a primeira experiência que foi fruto do desenvolvimento de sua luta; posteriormente muitas outras ocorreram, chegando à atualidade com um acúmulo de experiências  que a torna a classe potencialmente capaz de efetivar globalmente esta nova sociedade.
Esta nova sociedade por sua vez só é possível com o fim do capitalismo. Sua realização demarca o fim de privilégios, o fim das classes, o fim da exploração; é o início de uma sociedade igualitária, a sociedade verdadeiramente comunista, no seu sentido autêntico de ser. Bem, se o comunismo, como vimos demarca o fim das classes, o fim da exploração, o início de uma sociedade igualitária sem a existência de patrões e chefes, logo, a possibilidade de uma felicidade generalizada, por que então que o comunismo causa tanto espanto nas pessoas?
Isso só tem uma explicação: com o intuito de distorcer a concepção que demonstra a possibilidade desta outra sociedade vir a substituir o capitalismo, a burguesia, através de seus auxiliares intelectuais, distorceu o sentido verdadeiro de comunismo, tornando-o algo pejorativo, semelhante a aquelas ideias que colocamos no início deste texto. Isso acabou criando dificuldades para que os trabalhadores percebam que são eles próprios os agentes que efetivarão a transformação social, o fim da miséria, o fim do descontentamento generalizado, questões que são fruto da exploração que a burguesia submete os trabalhadores nos locais de trabalho. E a burguesia faz isso para manter os seus privilégios.
A concepção de comunismo hegemonicamente divulgada atualmente na atualidade**, portanto, é uma ideologia, pois, além de divulgar uma falsa ideia de comunismo, provoca sentimentos de sua negação, por ser percebido como algo ruim, negativo, que pode prejudicar a vida das pessoas; desta forma oculta-se as experiências, o movimento real da luta dos trabalhadores que levou à efetivação de uma nova sociedade; e nesse sentido a burguesia consegue temporariamente atrasar o fim do capitalismo, pois muitos evitam inclusive querer saber algo sobre este assunto. 
Essas idéias falsas, no entanto, não perduram para sempre, pois em momentos que a luta do proletariado se torna revolucionária, aquelas são superadas. Enquanto esta luta não se torna aberta e declarada, é preciso revelar o caráter ideológico do comunismo e colocar em seu lugar o seu caráter teórico, ou seja, a expressão verdadeira e autêntica do comunismo, que perpassa pelo projeto de sociedade desejado pelas classes exploradas, a negação da sociedade burguesa. Assim, estaremos contribuindo para que essa luta apareça o mais rápido possível e supere o estado de coisa atual.
Supera-se, desta forma, a ilusão e a substitui pela verdade. O comunismo no seu sentido autêntico é expressão dos interesses de classe do proletariado revolucionário, e se tornará arma para o avanço de sua luta no combate final, quer a burguesia queira, quer não. A burguesia “criou os homens que empunharão essas armas – os operários modernos, os proletários” (MARX e ENGELS, 1998, p. 19). A luta final é inevitável. Nesta o comunismo autêntico prevalecerá sobre a ideologia comunista.


Bibliografia

MARX e ENGELS. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX e ENGELS. Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

VIANA, Nildo. Cérebro e Ideologia: uma crítica ao determinismo cerebral. Jundiaí: Paco Editorial, 2010.


* Na terceira parte desta discussão analisaremos o comunismo que emerge na União Soviética, uma expressão prática do falso comunismo – contrário ao comunismo desejado pelo proletariado revolucionário – o qual causou espanto e medo às pessoas devido à barbárie empreendida pelo estado sobre a população Russa; foi quando os integrantes das classes exploradas foram submetidos às mais cruéis formas de exploração e torturas, tendo o bolchevismo e a concepção leninista a expressão deste falso comunismo. A recusa do comunismo, desta forma, em grande parte pode ser também explicada pelo comunismo que emerge nesta experiência que ocorreu na Rússia.
** Veremos posteriormente que a concepção hegemônica e falsa de comunismo tem em Lênin, sua principal referência.

5 comentários:

  1. É preciso acabar com os bichos papões e revelar o que realmente existe nos lugares obscuros!

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  2. oi? Quanto tempo. Que bom que te encontrei!!

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  3. sei que aqui é seu lugar de trabalho.
    mais não resisti quando achei seu blog eu fiquei louca pra deixar um comentário pra você.
    é muito legal seu trabalho ta de parabéns.
    gostei muito.
    bjo saudades.

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  4. desculpa este comentario foi meu marilia

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  5. Olá Marília e Georgina. Que bom que nos encontramos novamente, assim, podemos manter contato. Espero que gostem do blog e possam aproveitar as leituras que são postadas aqui. Quando puderem, deixem as suas contribuições e comentários, certo? Abraços! Edmilson Marques.

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